Parada Literária - 2023

    Publicado por:  Gizeli de Fátima Cordeiro Bento

Parada Literária – 2023

 

A Gerência de Faróis e Bibliotecas da Prefeitura de Curitiba está expandindo suas iniciativas de formação para incluir vivências culturais para seus servidores e leitores em 2023. Isso demonstra um compromisso em enriquecer a experiência cultural e ampliar o repertório dos agentes de leitura e dos leitores sob sua curadoria. A busca pelo aprimoramento e ampliação do repertório dos agentes de leitura é crucial. Agentes de leitura bem informados e culturalmente diversificados podem oferecer recomendações de leitura mais abrangentes e contextualizadas, atendendo às diferentes preferências e interesses dos leitores. Isso pode enriquecer a experiência de leitura de cada indivíduo.

Os livros, a literatura e consequentemente seus autores sempre foram fator de identidade, de exploração da imaginação, de novos olhares, de alteridade, de humanização e, nesse contexto, se torna importante na formação do indivíduo o contato com a diversidade de produções culturais desenvolvidas na cidade.

A “Parada Literária” em formato on-line, idealizada durante o período pandêmico, contou com a participação de 29 escritores (2020 e 2021), por meio de conversas online, realizadas a partir das obras dos autores curitibanos ou radicados na cidade. A participação e o retorno por profissionais da educação e comunidade foram significativos, ampliando o conhecimento, o repertório sobre a cadeia produtiva do livro e ainda, permitindo o desenvolvimento pessoal por meio da apreciação da cultura local.

Devido à pandemia, houve a oportunidade para a divulgação dos trabalhos, voltados à literatura e a outras atividades culturais dirigidas aos professores e comunidade em geral, em meio on-line:

 

ao pensar em impactar, por meio de ideias criativas e coesas, a arte pode ser um elemento fundamental para traçar caminhos rumo à transformação. Nesse sentido, a literatura é um recurso indispensável a ser explorado por associações, comunidades, ONGs, empresas, instituições públicas, entre outros diversos setores da sociedade. Isso porque ela proporciona reflexão, mudança de comportamento e de ideias e, portanto, momentos para se chegar a uma ressignificação dos atos. (MORAES, 2019)

 

           

Com a quantidade de participações e solicitações dos docentes e agentes de leitura da Rede Municipal de Ensino, elabora-se a proposta da continuidade das ações da Parada Literária em momentos programados para a vivência da literatura e da arte como experiência estética, considerando as potencialidades que esta ação tem para o desenvolvimento pessoal e profissional dos docentes.

E é disso que os livros e a literatura tratam, de construir possibilidades, de perceber o mundo sob diferentes perspectivas, sociais, histórias, políticas, culturais. A literatura é chave para o processo de formação humanizadora e estética dos indivíduos, sendo fundamental em sua formação, como nos traz Antônio Cândido em o “Direito a Literatura”, não há ser humano que possa ficar sem fabular. Na arte da literatura, isso perpassa pelo sonho e pela realidade. No jogo simbólico de contar e imaginar a vida, nos surpreendemos pelo encantamento, inventividade, e assim, entendemos como o mundo é e como poderia ser.

O primeiro semestre foi repleto de conhecimento e trocas através da Parada Literária. Eventos literários online, realizados por meio do Google Meet, oferecem uma oportunidade para os leitores se conectarem com autores e aprenderem mais sobre seus livros e experiências. A interação direta com os autores é uma maneira empolgante de aprofundar o entendimento sobre o processo criativo de suas obras. Eventos como esse também desempenham um papel importante ao promover a leitura, pois os autores podem compartilhar suas paixões e inspirações, motivando os participantes a explorarem mais livros e histórias.

Em março, no dia 17, aconteceu a parada literária com a autora Gesiane Fontoura. A escritora curitibana falou do seu percurso de criação das obras “Meu Mundo Azul e Rosa” e o “O Leão e o seu Jubão”.

A autora mencionou as experiências de vida que a levaram produzir a narrativa Meu Mundo Azul e Rosa, situações que a mobilizaram a falar sobre diversidade, na tentativa de quebrar padrões e estereótipos em relação as cores. Relatou o diálogo com a ilustradora para que texto e ilustração caminhassem na mesma direção, pois a escrita não poderia ter imagens estereotipadas e as cores teriam que entrar na vida da criança conforme a relação construída com elas. Falou da dificuldade de lançar sua escrita pela insegurança e medo de se expor, teve coragem de concretizar o livro pelo apoio que teve de profissionais envolvidos com literatura.

Num segundo momento, compartilhou o seu livro mais recente “O leão e o seu Jubão”. Falou sobre a história e o trabalho da ilustradora, discorrendo também sobre suas inspirações, as vivências que teve em relação a temática central da obra. Verbalizou que seu segundo livro, como o primeiro, tem como tema central a diversidade pela metáfora “Juba” (cabelo). A autora desde criança gostou de se expressar pela escrita e que as suas experiências com a literatura marcaram sua vida e despertaram o desejo de escrever. Acredita que todos tem potencial para desenvolver sua autoria e que isso deve ser transmitido às pessoas desde a infância.

Em abril, conhecemos Oscar Reinstein e suas múltiplas habilidades como designer gráfico, designer de moda e ilustrador. Sua capacidade de criar respeitando os desejos e necessidades de seus parceiros é uma qualidade inovadora em um artista colaborativo. A capacidade de compreender e atender às expectativas dos parceiros é fundamental para o sucesso em projetos criativos, pois garante que a visão e as metas compartilhadas sejam alcançadas de maneira eficaz. Isso demonstra um alto nível de profissionalismo e adaptabilidade por parte de Oscar Reinstein, pois ele é capaz de trabalhar em diferentes contextos e com diversas demandas artísticas, procurando sempre inserir sua personalidade em cada trabalho, é ilustrador das obras: “Cadê o Fubá?”, “Quem Arrumou essa Mala?”, “Retrato de Irmão”, “A Lhama e o cisne”, “O prédio maluco”, “Senhor pança e o patinete”, “Ret”, “Na casa amarela do vovô” e “Retrato de Irmão”.

A diversificação dos materiais em que suas criações foram aplicadas, como porcelanas, pratos, canecas e almofadas, é uma forma interessante de levar a arte para além das telas e quadros tradicionais. Essa diversidade de produtos pode tornar as obras de Oscar mais acessíveis e permitir que um público mais amplo aprecie em seu cotidiano, incorporando a arte em suas vidas de maneira tangível, essa colaboração entre literatura e arte visual demonstra como diferentes formas de expressão artística podem se complementar e enriquecer uma experiência cultural.

No mês de junho, a Parada Literária foi com Sandra Aparecida Brazão Carmim. Professora há 27 anos, trabalha na Rede Municipal de Ensino de Curitiba desde 2006. Fez magistério, Pedagogia (FACEL) e Pós Graduação em Ciências Políticas (UFPR). Casada e tem 2 filhos, seu filho mais novo é o ilustrador do seu livro “Gaguejar também é um jeito de falar”. Sempre gostou muito de ler e também escrever, porém o livro não foi planejado. Escreveu a história, algumas amigas leram e gostaram. Encaminhou para a revista Veredas, teve o retorno que o texto estava bom e com potencial para um livro infantil, foi então que surgiu a parceria com a editora Appris.

A história do livro, fala que gaguejar também é um jeito de falar e conta a história de um pequeno papagaio que nasceu papagajeador.

“O papagaio Davi é um lindo filhote que apresenta uma característica especial ele papagaia gaguejando. É um papagaio papagajeador. Muitas vezes, tropeça nas palavras e não consegue papagaiar o que está pensando, e isso o deixa muito triste. Davi tem vários amigos que brincam alegremente com ele, mas não entendem o porquê dele não papagaiar como eles. Mas, o jeitinho dele de papagaiar não atrapalha em nada a brincadeira”.

Atualmente Sandra apresenta seu livro nas escolas, onde realiza contação com músicas, diálogos sobre respeito as diferenças e um fantoche para encantar a criançada.

Em agosto, conversamos com Josiane Mayr Bibas e Adriana Barretta Almeida.

Josiane Mayr Bibas é fonoaudióloga e coordenadora da OSC Freguesia do livro. É uma das criadoras do Coletivo Era Uma Vez, pois percebeu o quanto as crianças gostam de conhecer autores dos livros que leem. Essa foi uma fala para falar sobre seus livros: “Amélia e Bartolomeu”, “Um verão na ilha”, “O tesouro das férias”, “Doeu, Bartolomeu?” e “A coceira de Bartolomeu”. Falou um pouco sobre cada obra e como foi o processo de criação.

“Amélia e Bartolomeu” traz a história de Bartolomeu que, um dia, percebe que o único elefante roxo em sua manada e tenta entender essa diferença. Na sua busca por respostas, encontra uma abelha perdida que quer encontrar sua colmeia. E seguem juntos, o elefante se afastando de sua manada enquanto Amélia quer voltar para sua família. No caminho, muitos encontros pra gente parar e pensar. O livro é uma excelente oportunidade para falar sobre abelhas, animais fundamentais em nosso planeta e que têm sofrido grandes riscos pela urbanização crescente, os desmatamentos e o uso indiscriminado de agrotóxicos em plantações e jardins. As abelhas foram declaradas seres vivos insubstituíveis, pois fazem um imenso trabalho de polinização, voam quilômetros por dia espalhando polén. Milhares de espécies de flores, frutas e verduras existem por causa delas. Isso possibilita e produção de 1/3 dos alimentos consumidos no planeta. As abelhas precisam de nós e nós precisamos delas. Então, o livro traz um encarte – o Manual do Guardião das Abelhas – que vai mostrar como podemos melhorar o ambiente para nossas abelhas, aproximando as crianças (e os adultos) a este movimento de proteção.

“Um verão na ilha”, traz um pouco das férias de verão que todos já vivemos. Traz o encontro de diferentes realidades e as trocas que este encontro proporciona. Fala da amizade, de crescimento, de mútuas aprendizagens. E da eterna possibilidade de formar leitores.

“O tesouro das férias”, além da história traz um encarte que o acompanha levando crianças a conhecer Curitiba com um olhar mais curioso e interessado. Passeando por 12 pontos turísticos da cidade, a criança terá mistérios a serem desvendados de maneira divertida e que levam ao melhor tesouro: o abraço familiar.

“Doeu, Bartolomeu?, fala sobre o elefante Bartolomeu que sempre encontra uma solução. Mas quando o problema dói por dentro um conselho é sempre bom. “Doeu, Bartolomeu?” é uma deliciosa história em rimas que nos aconchega e cura dentro de um abraço.

“A coceira de Bartolomeu”, conta a história do simpático elefante Bartolomeu que precisa resolver um problema e sai em busca de uma solução que seja boa para todos, não apenas para ele. Uma oportunidade para conversar sobre superação de dificuldades, respeito à diversidade e convivências.

Josiane falou sobre o “Coletivo Era Uma Vez” na sua escola. São um coletivo de autores de literatura infantil e juvenil de Curitiba, cheio de ideias e conteúdos criativos.

Ter um autor do “Coletivo Era Uma Vez” na sua escola traz: atividade de 50 min. com os alunos; contato direto com escritor e/ou ilustrador – entrevistas e bate-papos; conhecimento do processo criativo do autor; contato com a cadeia de produção de um livro; oficinas de escrita e/ou ilustração e atividades relacionadas ao livro; encantamento pela leitura, escrita e ilustração; a descoberta que escrever e ilustrar é possível para todos.

Em qual contexto a escola pode receber um autor do coletivo? Autor como projeto: professor promove contato prévio com o livro e biografia do autor; Escritor /ilustrador visita a escola para interações sobre o livro escolhido e Feiras Literárias.

Os autores ainda sugerem atividades que podem ser realizadas a partir de seus livros, oferecem capacitação de professores com o trabalho de literatura em sala de aula; conversam com os pais sobre incentivo de leitura em casa; realizam oficinas de criação de texto e de imagem como escritor e ilustrador.

Adriana Barretta Almeida cursou Letras e Artes visuais e foi na Literatura infantil que encontrou o ponto de encontro dessas linguagens. Sempre habitou o universo da infância, que lhe permitiu muitos anos de alegria como professora e como mãe. É especialista em Literatura Infantil e Contação de História, Arte e Cultura Visual e mestre em psicologia. Mas o que virá seu coração do avesso é abrir um livro lindo ao lado de uma criança para aprender como se lê uma história e o mundo. “Depois de mais de 20 anos de carreira, pode dizer que o seu trabalho é o de dividir o que sabe. E sempre está em busca de novos saberes e novas formas de dividi-los, ou melhor: multiplica-los. Sua profissão é acompanhar o crescimento humano, seja o de profissionais em busca de novos instrumentos de comunicação como o mundo, seja o da criança que começa a descobrir e criar esse mundo, assim, a comunicação, o vínculo, a expressão humana são a linha condutora dos caminhos que percorre: professora de inglês, psicopedagoga, escritora de materiais didáticos e de literatura. Com dedicação e afeto”.

Adriana falou sobre o processo de criação dos seus livros: “A última folha”, “Poemear”, “O abraço do ouriço” e “Todo laço é feito de areia”.

O livro bilíngue “A última folha” acompanha a vida de uma folhinha, que, na língua das coisas miúdas, nos leva a pensar sobre a passagem do tempo, sobre o ciclo da vida, sobre se entregar ao vento que nos carrega aos caminhos desconhecidos, mas inevitáveis. Essa pequena folha nos fala de alegrias e amizades, desejos e angústias que acompanham todos os seres vivos.

“Poemear”, é uma fala de criança que vira verso. Um poema vira desenho. Um desenho vira poema. Assim é Poemar de Pernas Pro Ar. Uma parceria de afeto e poesia, um encontro de mãe que escreve e filho que desenha (e inspira), numa troca de olhares entre si e com o mundo. Poemear é a poesia que a gente aprende com as crianças: “Porque essa gente pequena veste o mundo de poema. E vira gente gigante e ensina pra gente a semente quando poemeia”.

“O abraço do ouriço”, encanta com a história do pequeno ouriço que cresceu ouvindo os seus amigos, ouvindo os outros de sua espécie se gabando de que eram espinhosos e nasceram para espetar. No entanto, o que ele mais queria era sentir o calor de um abraço. Como consegui-lo, sem espetar alguém? Será que esse bichinho gentil e diferente vai encontrar outros jeitos de abraçar? Um livro delicado e atual, que fala sobre as possibilidades do amor e as diferentes formas de abraçar. A história escrita por Adriana Barreta e ilustrado por Verônica Fukuda é sobre um ouriço que cresceu ouvindo os outros ouriços se gabando que eram espinhosos e nasceram para espetar. Mas o que ele mais queria era sentir o calor de um abraço. Como conseguir isso sem espetar o outro?

“Todo laço é feito de areia”, traz os versos gerados pelo talento e a inspiração de Adriana, ganham o corpo e a densidade trazidos pelo tempo, a reflexão e a precisão. Mas é uma lapidação ao contrário. Como a pedra e o tijolo que se desfazem em pó, os poemas captam o amor e a vida se diluindo, gota a gota, em incertezas e distâncias. Sem tragédias, nem espantos, a dor da perda se desenha em pequenos gestos, rastros, sopros e cinzas. É neste oceano de impermanências/permanência que o início e o fim sempre carregam. Na poesia de Adriana, a sensibilidade, a sutileza e a beleza também sabem sangrar, construir e eternizar.

Eventos literários como a Parada Literária têm um papel fundamental em enriquecer a experiência dos participantes e estimular o interesse pela literatura.

 

Autor: Gizeli de Fátima Cordeiro Bento | Fonte: Gerência de Faróis do Saber e Bibliotecas
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