A Investigação e a Leitura Sensível das Miudezas.

    Publicado por:  Paula Francyelle Moreira Pedroso

Um solzinho que esquentava, uma grama verdinha e os espaços externos do CMEI habitados por um Maternal curioso.

- Olha prô, uma abóbora!

Era uma pitanga, meio estragadinha e já descartada na grama. Uma “abóbora pequenininha”. Qual o processo de investigação e associação desses detalhes que essas crianças viveram?

Essa gente tão miúda, acostumados com um mundo tão grande tiveram tamanha sensibilidade para olhar com carinho essas miudezas e viram beleza nas coisas menores que eles. Será que dessa forma eles se sentem grandes?

Veio então a proposta de estender essa busca pelos arredores de onde habitávamos para ver quantas coisas mais encontrávamos. Com o auxílio de algumas lupas, as crianças assumiram posturas investigadoras. E de repente, um mundo inteiro esperava para ser descoberto dentro desse quintal.

Casquinhas de caracóis que já haviam partido, aranha de jardim dentro de uma teia. Alguns cogumelos coloridos embaixo de um tronco que a professora levantou. Musgo de árvore, pequenas colônias de líquens, formiguinhas trabalhando apressadas por todo lado, um pezinho de maracujá atrás do nosso muro, com algumas frutinhas. E um ovo de passarinho, caído do ninho alto.

Os olhinhos pequenos viram tantas coisas que gente grande de cabeça erguida não vê. E com essa leitura sensível, apanharam todos os desperdícios esquecidos aqui e acolá.

Era coisa demais acontecendo em paralelo ao nosso cotidiano de brincadeiras na unidade. Com cada achado, as crianças se entusiasmavam e queriam mais. Rápido, tem um mundo enorme aqui pra gente descobrir ainda essa tarde. Os brinquedos foram deixados de lado e cada um vivia uma busca particular por mini-vidas.

Quantas coisas pequenininhas fazem essa imensidão que é o sentir? O aprender?

E de quantas coisinhas nós somos feitos?

Achados compartilhados, olhos curiosos, de mão em mão. Deixa eu ver, mostra pra mim... O ovinho do passarinho acabou se quebrando. Cadê o passarinho bebezinho que devia estar aqui dentro?

Os pequenos maracujazinhos retirados do pé geraram inquietação. Será que dá pra comer?

O maracujá já tinha dono, alguns tão pequenininhos que usamos novamente nossas lupas. Colocamos as larvinhas sob um papel preto, para que elas se destacassem aos olhos das crianças. Novamente transvendomundos. O mundo de hoje era dentro do maracujá. As sementinhas, o cheiro, mas principalmente as larvinhas. Nenhum detalhe passava despercebido pelos olhos das crianças. Pediram para que cortássemos todos os maracujás recolhidos. Em um deles, descobrimos a maior larva de todas. Essa foi protagonista de um show de experimentação. Quando chegava na ponta da mesa, colocávamos de volta no papel. Algumas crianças quiseram pegá-la na mão. E se encantaram pelo movimento do seu corpo ao se locomover nas superfícies.

Dos caracóis que encontramos todos eram apenas casinhas, com exceção de um. Depois de muita insistência, ele saiu pra ver quem batia em sua portinha. E o seu movimento encantava quem assistia. Queriam pegá-lo na mão, mas ele se recolhia com o toque.

“Ele morde?” “Olha a cara dele”

Joaninhas, penas caídas de passarinhos, raízes de árvores. Tudo era convite.

No solário, sempre temos insetos visitantes, devido as árvores do nosso espaço. Lá no cantinho, embaixo do rodapé, no final da tarde: uma lagartinha. Mais uma reunião de emergência. Todos queriam investiga-la.

Que pequenininha. É uma minhoca? Ela estica, encolhe. Seu corpo é todo mole

É uma cobra!

O que ela come, ela tem rabo, ela morde?

As perguntas surgiam ao mesmo tempo das respostas. Uma criança completava o processo da outra. As lupas eram disputadas pois sua função já fazia parte do processo interno das crianças de compreensão.E se perderam mais uma vez nas descobertas. Ou estavam se encontrando, em meio a teorias e investigações?

Essas crianças agora só pensam em miudezas. Que nada, o ano todo foi assim. Conchinhas. Lama pegajosa e molhada depois da chuva. Bolhas de sabão. A água ainda morna na enxurrada de uma tempestade de maio. A fruta colhida do pé, no quintal da nossa sala. As minhocas que aparecem pelas frestas do muro. As gotinhas da chuva que passou. A água fria do banho de mangueira quando não aguentávamos mais o calor.

Vai chegar o dia em que essas mesmas crianças escreverão grandes textos, somarão grandes quantias. Irão desvendar as leis da física, a anatomia do corpo humano. Mas antes disso, deixamos eles sentir o movimento da lagarta, contar as pintas das joaninhas e seguir com os dedinhos as linhas das folhas.

“Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.”  Manoel de barros

Autor: Caiuá Ilhéus, CMEI | Fonte: Jessica, Rafaella e Silvania.
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As grandezas e pequenezas medidas não por fita métrica, mas sim pelo encantamento que nos produz.
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